14 - MUNDANÇAS SÓ ACONTECEM FORA DA ZONA DE CONFORTO!

  No sábado à tarde, voltando do mercado, Almir passando em frente ao Bar 50!, ver a porta meia aberta. Entra para ver se está tudo certo. Observa Adriana sozinha sentada em uma mesa. Vai até ela, sentando-se e perguntando-lhe:

- Pensativa, Adriana?

- Às vezes, Almir, sinto-me vivendo em um papel que não é exatamente o meu desejo interior. Sempre me adaptei às exigências do meio onde vivi. Acho que isso acontece com todos. Assumimos uma aparência que geralmente não corresponde ao nosso modo de ser autêntico. Apresentamo-nos mais como os outros esperam que sejamos, ou como nós desejaríamos ser, do que realmente como somos.

- Usamos muitas máscaras, Adriana. Todas as profissões parecem ter uma aparência artificial, um papel à representar. O professor, o médico, o militar, nós empresários, vendedores, por exemplo, mantemos uma fachada de acordo com as convenções coletivas, quer no vestir, no falar ou nos gestos – ele dá uma risada: - Parece que muitos fundem-se então com os seus cargos e títulos, ficando reduzido a uma impermeável casca de revestimento. 

- Eu sempre desempenhei vários papéis sociais, interagindo no mundo real por meio de vários tipos de pessoas. Agora sinto que minha personalidade pública pode não representar minha verdadeira natureza. Está certo, nasci em uma família bem de vida, tive bons estudos, um bom casamento durante um tempo. Tenho dois filhos adolescentes maravilhosos. Uma carreira promissora, estou no topo na empresa onde trabalho. Conceituada no mundo dos negócios. Só que cheguei em um ponto que essas coisas perderam o sentido. É como se eu tivesse cumprido com louvor todas as tarefas da primeira metade da vida. Mas ainda há muita energia dentro de mim querendo ser canalizada não sei pra onde!

- Engraçado, o José Renato me diz a mesma coisa – conta ele rindo.

- Talvez esse seja um comportamento universal do ser humano.

- Podemos perguntar isso a minha amiga Cátia. Aliás, Adriana, hoje, daqui a pouco, tem mais uma palestra dela. Vamos?

-  Taí, gostei... Aceito o convite.

* * *

Naquela tarde, Morielle vai à uma consulta no hospital filantrópico de sua cidade. Após a espera, ela é chamada ao consultório, onde um homem de traços orientais, cabelos grisalhos e jaleco branco, sentado por de trás de sua escrivaninha, apresenta-se simpaticamente:

- Olá dona Morielle, entre, por favor, sente-se. Meu nome é Yuri, sou médico ginecologista e diretor-clínico deste hospital. No que posso ajudá-la?

- Bem doutor, acho que estou entrando na menopausa.

- É bem provável pela sua idade. Esse é o nome dado à última menstruação, que geralmente acontece entre 45 e 55 anos, marcando o fim da fase reprodutiva da vida da mulher. Isso significa que ela esgotou seu estoque de óvulos, que foram liberados desde a puberdade, mês a mês, ao longo de 30, 35 anos. O período que se segue após a cessação da menstruação é chamado de climatério.

  - Tenho apresentado diversos sintomas, isolados ou em conjuntos. Os mais comuns são ondas de calor, insônia, palpitações, diminuição da libido e da capacidade de concentração, secura vaginal que no meu último relacionamento já causava dor ou desconforto nas relações sexuais e mal-estar geral. 

- Entendo a senhora. A maior consequência da menopausa é a perda da capacidade de produzir um hormônio feminino muito importante, o estrogênio. Esse fato é responsável pelos sintomas desagradáveis deste período e, a longo prazo, pode também comprometer a saúde cardiovascular, aumentando os riscos. Por isto, foi muito importante a senhora procurar ajuda e orientação profissional. As mulheres precisam sempre buscar informações sobre as mudanças que ocorrem em seu corpo. Não há nada mais importante do que entender o que está acontecendo consigo mesma, principalmente em momentos de mudanças profundas, como ocorre nesse período. Isso auxilia na melhor aceitação dos processos, na adesão aos tratamentos propostos e, a longo prazo, na manutenção da qualidade de vida.

- E o que devo fazer a partir de agora, doutor Yuri?

- Eu sei que não é fácil lidar com essas mudanças, por isso é fundamental contar com o apoio dos familiares. Eles devem entender que este é um período de transição e de profundas oscilações hormonais, logo, requer cuidados especiais e paciência.

- Nisto agora tenho uma família bem legal.

- Fico feliz, dona Morielle. Também para tirar de letra essa fase, aconselho manter um estilo de vida saudável, que poderá ser obtido mais facilmente por meio de assistência multiprofissional com médico, nutricional e psicológica. E eu já vou lhe incluir nos programas desses profissionais aqui mesmo no hospital.

- Eu lhe agradeço muito, doutor. Se me permite, quero mudar de assunto. Li no mural do corredor que vocês procuram um assistente administrativo. Será que com minha idade e por estar há muito tempo fora do mercado de trabalho, mesmo assim, posso me candidatar à vaga?

- Eu não vejo problemas. Aqui valorizamos as pessoas experientes, maduras. Gosto de pessoas assim com atitude de se arriscar. A senhora terá que passar por um exame e período de testes. Se aprovada, será bem-vinda à nossa equipe.

* * *

Na clínica de Cátia, cheia como sempre, a terapeuta holística abre sua fala:

- Dando continuidade aos nossos temas anteriores, uma das coisas que pode lhe impedir de desenvolver autoestima e resiliência, é você não querer sair de sua zona de conforto. Ela é uma série de ações, pensamentos e comportamentos que uma pessoa está acostumada a ter e que não causam nenhum tipo de medo, ansiedade ou risco. Nessa condição a pessoa realiza um determinado número de comportamentos que lhe dá um desempenho constante, porém limitado e com uma sensação de segurança. Ela não se arrisca em conquistar algo mais para si. Só que deixar a vida no piloto-automático não é sinônimo de segurança. Desafiar-se diariamente pode revelar o verdadeiro potencial de cada um.  Estar na zona de conforto pode gerar a angústia de uma vida improdutiva de desgaste nos campos profissionais e pessoais do acomodado.

- Cátia, zona de conforto significa comodismo? – Pergunta da plateia.

- Sim. Todos nós precisamos sair do período de improdutividade, pensando que o comodismo evita novos medos e frustrações. Só que qualquer mudança só acontece fora da zona de conforto!

* * *

  Morielle está adiantando a janta para sua nora, quando seu filho chega, pedindo-lhe:

- Mãe, morreu o pai de um amigo meu do serviço. Eu não tenho coragem de ir sozinho no velório. Vamos comigo?

- Sim, meu filho. Eu vou com você...

Durante o funeral, ela fica sentada em uma cadeira, observando a tudo. Vem à sua mente lembranças de conhecidos que faleceram recentemente, mortes de parentes ou amigos próximos. Nessa fase da vida, é comum que, conforme vamos envelhecendo, nosso círculo de amizades também siga esse ciclo. Portanto, quando sofremos perdas significantes de entes queridos, uma tristeza muito além do luto pode nos abater.

Surgem então, ou ressurgem, os dilemas de que nos inquietam. A sensação de que a infinitude é utópica, contrariando o ideal de uma vida que se gostaria eterna e perfeita, seja lá o que for isso da perfeição. Que a juventude é mais um passado distante do que presente palpável e que prolongá-la pode tornar-se agonizante. Vem a falsa sensação que o tempo escasseia e, provavelmente, não será mais razoável realizar o que nunca antes se concretizou. E vêm os momentos que confundem melancolia com doença.

PRÓXIMO CAPÍTULO

Emílio Figueira - Escritor

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo independente. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de noventa títulos lançados. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira foi professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva. Atualmente dedica-se a Escrever Literatura e Roteiros e projetos audiovisuais.

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