A CINDERELA DE BAURU

MULHER DE BRINCOS VERDES - Emílio Figueira / Jan. de 2001 - Técnica: Aquarela sobre sulfite

  Década de 70. Tomou rapidamente seu banho, perfumou-se e penteou seu cabelo, ainda enrolada na toalha. Fez aquela mal e forte produção de maquiagem de sempre, tendo um vermelho e provocante batom para cobrir seus lábios morenos. Vestiu as peças íntimas, meia-calça preta, uma blusinha colante e minissaia sem bainha. A sandália de salto alto completava o look de Suzily.

Tomou cuidado ao sair de casa para não despertar a atenção de seus pais e irmãos. Pegou o coletivo ali mesmo no bairro onde morava e rumou para o centro da cidade. O sol estava se pondo e dando lugar para a noite. 

Dentro do ônibus, piscou para um rapaz.

– Estou sentindo cheiro de leite Ninho – disse o rapaz ao amigo, percebendo a sua pouca idade. E, de fato, Suzily tinha só quinze anos, embora experiência de trinta.

Passou pelos barzinhos da avenida central até chegar a uma lanchonete. Lá, casais se amavam em meio a bate-papos e muita música agitada. Era noite de sábado.

Suzily queria aventura. Era acostumada a ir à festas em que rolavam muita droga e sexo. Não se importava em ser chamada de certos nomes ou de ser objeto para muitos. Não se importava com a ideia de se casar de branco. Queria só viver o prazer do presente. Já estava acostumada a ser tratada de qualquer jeito pelos rapazes.

Porém, havia naquela lanchonete um rapaz sozinho em uma mesa. Suzily não teve dúvidas em ir até ele.

– Posso fazer parte de sua solidão?  

– Por favor, sente-se ¬– o rapaz respondeu educadamente.

– Vi seu jeito solitário e, como também estou sozinha, penso que podemos fazer companhia um para o outro. Meu nome é Suzily.

– Tudo bem, o meu nome é Roberto. 

– Mas você não me respondeu por que está só?

– Meus amigos que moram comigo viajaram para a casa dos pais e fiquei. Inclusive, estava até pensando em ir para a casa e aproveitar a ausência deles para estudar.

– Você estuda?

– Sim, estou cursando Belas Artes.

– É daqui mesmo de Bauru?

– Não, minha família mora em São Paulo. Não posso ir até lá por enquanto, pois andei fazendo besteiras e estão me considerando comunista. Bem, acho que já vou indo... – Levantou-se.

– Posso ir com você, Roberto?

– Para que, Suzily?

– Gostaria de conhecer o reduto de um artista.

– Então vamos...

Saíram caminhando pelas ruas. Olharam vitrines iluminadas, as misturas de cores dos faróis de trânsito e os rostos de pessoas a caminhar pela noite. Até que chegaram ao prédio onde ele morava. 

– Já é tarde, seus pais não irão ficar preocupados?

– Não tenho pais, sou sozinha no mundo – Suzily mente.

Entraram. Ele ofereceu o sofá para ela se sentar, pôs uma música na vitrola e sentou-se na poltrona à sua frente. O papo começou a rolar. Roberto logo percebeu que teria de escolher os assuntos e palavras para dialogar com a garota, que era de poucas leituras. 

Ela dava umas entradas para que ele percebesse o que realmente queria. Roberto fingia não entender, tratando-a com delicadeza e não como uma qualquer, igual a muitos rapazes.

– Posso passar esta noite aqui?

– Por que não? Eu empresto minha cama para você. Vamos lá dentro que mostro. 

No quarto, ele pegou algumas roupas de cama, pôs em cima de uma cadeira e foi para o banheiro. Ela tirou a saia, a meia-calça e a blusa, deitando e se cobrindo. Roberto voltou já de pijama, pegou as roupas que selecionou e dirigiu-se até a porta do quarto.

– Pensei que...

– Pensou errado – Roberto a interrompeu e completou – não devemos misturar as coisas. Boa-noite. Ele saiu e fechou a porta.

O plano de Suzily deu errado. Roberto não quis fazer amor. Ela se virou para o canto e começou a pensar no que errou. O que havia de estranho com aquele rapaz?

  Minutos depois, uma música clássica vinda da sala invadiu seus ouvidos. Levantou-se e foi ao encontro sem se preocupar em cobrir seu corpo.

Lá, Roberto tocava violino. Ao vê-la, alheio, continuou a melodia. Suzily deixou-se envolver pela música. Sentada ao seu lado e encostando a cabeça no ombro de Roberto, começou a afagar o cabelo dele, que continuou tocando. Depois de alguns minutos, parou e começou a acariciá-la.

Após alguns beijos, ela perguntou: 

– Por que você evita fazer amor comigo?

– Por que nós, seres humanos, temos que levar tudo pelo lado do sexo? A vida se resume em uma cama? Não, eu acho que não.

– O que você quer dizer com isso? 

– Há outras formas de curtir e obter prazer. Aqui mesmo, estamos nos curtindo apenas em carinhos e beijos e não está sendo gostoso?

– É, está. Nunca ninguém me tratou assim com tanto carinho e delicadeza.  Sempre fui um objeto de prazer para qualquer um.

– Você é tão nova ainda, Suzily. Saia dessa vida. Vá, procure um amor verdadeiro. Procure uma felicidade que irá fazê-la se sentir bem e orgulhosa de si mesma. Rasgue essa fantasia que você usa para fugir de sua realidade. Seja você mesma, e não objeto de muitos.

– Muito bonito tudo o que você me disse. Mas agora só quero continuar aqui, sentindo o seu puro carinho. Estou com frio.

Roberto a agasalhou com um cobertor e continuou tocando. Suzily adormeceu encostada nele.

No dia seguinte, ela teve que voltar à realidade da vida e do lugar onde morava. Foi recebida pela surra do pai e o choro da mãe. Os irmãos também lançaram olhares que a crucificaram. Contudo, a alegria da recente experiência era mais forte.

Os dias se passaram e, pela primeira vez, ela sentiu saudades de alguém que um dia deu o carinho que ela nunca teve nem em casa e muito menos na rua. Não teve dúvidas de ir ao encontro dessa felicidade. 

Lá, outra surpresa vinda pela informação do porteiro:

– O jovem Roberto não está mais aqui. Voltou de mudança para São Paulo.

Suzily, pela primeira vez, deixou cair uma lágrima por alguém. Sentou-se em um degrau e, cabisbaixa, começou a pensar. Lembrou-se de tudo que Roberto havia falado. Num instante, um sorriso voltou a habitar seu jovem rosto. Levantou-se e saiu caminhando pelas ruas bauruenses à procura de um amor verdadeiro.

Emílio Figueira - Escritor

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo independente. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de noventa títulos lançados. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira foi professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva. Atualmente dedica-se a Escrever Literatura e Roteiros e projetos audiovisuais.

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