A MUSA

UNIVERSO FEMININO - Emílio Figueira Nov. de 2000 -  Técnica: Óleo sobre tela


Luiz começou a jogar tintas contra a tela, esfregando-as com as mãos. Mais uma vez, entrou em conflito. O jovem pintor iniciante não estava com muita sorte, pois ninguém se interessava por sua arte.

De repente, um telefonema. Era um velho advogado muito seu amigo.

– Luiz, tenho uma boa notícia para dar a você, mas como estou com saudades daqueles nossos longos bate-papos, você pode vir até meu escritório?

– Com prazer, doutor. Já estou a caminho.

Era antes do almoço. Luiz vestiu-se rapidamente e se atirou pelas ruas.

Não sei por que, mas ele sentia certo dó das moças que circulavam pela cidade. Ele as achava moderninhas demais para suas idades. Ele pensava: “essas meninas pensam que sabem tudo e são donas da situação, mas são tão ingênuas. Não passam de objetos”. Em sua opinião sobre o sexo, tinha convicção que só se faz amor quando se tem amor! E devido a esse raciocínio, vivia sozinho em seu mundo de tintas e telas. Nunca abria a privacidade de seu estúdio para ninguém.

No escritório, realmente o advogado tinha a boa notícia:

– Falei com aquele meu amigo lá do Centro Cultural e ele conseguiu para você uma exposição para a próxima semana.

– Legal, doutor, fico contente.

O advogado tocou a campainha. Minutos depois, entra uma moça morena, magra, cabelos negros, lisos e cumpridos.

– Esta é Débora, minha nova secretária. Este é Luiz, um artista plástico, amigo meu, de uma capacidade incrível. Você ainda terá a oportunidade de conhecer os trabalhos dele.

– Gosto muito de artes. Admiro quem pinte ou escreve – Débora declarou.

– Bem, está na hora do almoço. Que tal irmos almoçar juntos? Assim continuaremos esse papo – o advogado sugeriu.

No restaurante, ocorreu uma boa conversa em que debatem artes e literatura. 

– Meu maior passatempo é ler. Conheço vários clássicos de Literatura Brasileira e estrangeira. Quanto à pintura, Luiz, tenho pouco contato, mas quando tenho oportunidade de ver uma tela exposta, fico um bom tempo a apreciá-la – Débora comentou.

– Fico contente que você se interesse por artes. Se quiser, posso mostrar meus trabalhos. 

– Ficarei muito grata, honrada.

O advogado, que até então estava mudo, deu um sorriso de alegria, percebendo que, pela primeira vez, Luiz estava se libertando de sua privacidade, o que o motivou a liberar Débora o resto da tarde para que ela fosse conhecer os quadros do jovem pintor.

No ateliê, havia telas iniciadas e outras já pintadas, pincéis e tintas para todo lado. Um lugar de muita tranquilidade, o que um artista procura no momento de inspiração e criação.

– Você pinta muito bem, sabe como ninguém misturar linhas, traços e cores.

– Não precisa elogiar tanto, Débora, muita bondade de sua parte. 

– Não é bondade, estou sendo sincera. Gostei de seus trabalhos, pode acreditar, são lindos, verdadeiras obras de arte.

– Fico contente por agradar você. Quer passar para a sala e tomarmos um café?

– Obrigada, mas tenho de ir, fica para próxima.

Após as despedidas, ela caminhou em direção ao elevador, momento em que Luiz, da porta de seu apartamento, a chamou:

– Débora...

– Oi... – respondeu ao se virar.

– Quero sua amizade hoje e sempre. 

– Legal – sorriu. Tomou o elevador e sumiu, deixando o cheiro de seu perfume impregnado no ar.

***

No outro dia, Débora ligou para Luiz:

– Oi, como passou de ontem?

    – Bem, e você?

– Muito bem. Hoje é sábado, não trabalho. Como estou à toa, resolvi ligar para bater papo.

– Por que você não vem para cá? Também estou sozinho e a gente faz companhia um para o outro.

Ela aceitou o convite e foi. Já no ateliê, começaram a conversar e falar um pouco de si.

– Eu pretendo fazer um curso de secretariado internacional nos Estados Unidos.

– Vai conseguir, pois você é muito inteligente e tem personalidade.

– Obrigada, Luiz, você é tão gentil, diferente dos rapazes que conheço. Tem um jeito todo especial de ser e de tratar as pessoas. Amo ser sua amiga.

– Que nada, você que é especial, Débora!

– Luiz, me diga um negócio, você nunca teve assim, vamos dizer, uma pessoa ou alguma paixão inspiradora?

– Não, nunca tive. Mas, pensando bem, você me deu uma ideia.

– O que foi?

– Vou pintá-la numa tela. Fique aí que já volto.

Ela ri do jeito engraçado como ele saiu. Luiz voltou com um cavalete, uma tela, pincéis e tintas.

– Faça uma pose, Débora!

– Mas eu não sirvo para isso...

– Serve, sim. Vai.

Débora tirou os sapatos, colocou as pernas sobre o sofá, apoiou o cotovelo esquerdo no braço do sofá, ajeitou os cabelos e sorriu.

Luiz começou a pintar. Traçou as linhas daquele rosto pequeno e moreno. O sorriso, o cabelo comprido, os detalhes daquele corpo magro de estrutura média. 

– Como está ficando?

– Você verá já.

Deu os últimos retoques. Pronto. Chamou-a para ver.

Ela teve uma surpresa. Como todo artista na hora de criar, mesmo sendo uma ideia extraída do real, sente a necessidade de fazer algumas modificações. Tinha retratado o seu rosto com perfeição e seu corpo seminu.

Percebendo o susto dela, Luiz ficou tímido e sem jeito. Cabisbaixo, disse-lhe:

– Desculpe, não deveria ter feito isto. Foi canalhice de minha parte.

– Não, Luiz, achei ótimo. Não estou chateada. Todos os grandes pintores fazem isso. É uma obra de arte. Além disso, a nudez nada mais é do que o ser humano ao natural. Agora, aquele café que você me ofereceu ontem, posso preparar para nós?

– Sim, fique à vontade.

Ela passou a mão em seu cabelo e foi para a cozinha. Luiz, pensativo, sentou-se. Débora voltou, pôs a bandeja na mesinha de centro e o serviu: 

– Que foi? Não precisa ficar desanimado por causa do quadro. Já disse que gostei.

– Não é isso. Estou preocupado com a exposição. Será a primeira vez que irei me expor à opinião pública. Nem sei o que escolher.

– Ânimo, vai dar tudo certo. Se você quiser, posso ajudá-lo a escolher as obras. Será muito bom estar ao seu lado te ajudando. Para isso sou sua amiga.

– Você realmente é uma amiga, Débora. Vamos, temos muito a fazer.

Ficaram um bom tempo escolhendo, debatendo e analisando os quadros. Tudo corria naquele clima descontraído e amigável.

– Bom, acho que já selecionamos todos.

– Acho que não, Luiz. E aquele que posei para você?

– Você quer mesmo que eu o exponha?

– Gostaria. E por falar nisso, como se chamará?

– Depois penso nisso, escolherei um título bem bonito.

E assim foi. Ela o ajudou em todos os momentos até a exposição.

***

Tudo estava lindo na galeria. Muitos apreciadores de artes, jornalistas, fotógrafos e publicitários. Débora ficava o tempo todo ao lado de Luiz que, graças ao apoio da amiga, sentia confiança em sua obra. O fato é que ele já não mais a via somente como tal!

O advogado, apreciando um quadro, notou alguma coisa:

– A moça desse quadro sem nome parece você, Débora.

Ela apenas deu um sorriso.

Luiz foi convidado para outras exposições. Estava todo eufórico.

Enfim, terminou e todos se foram. Era hora de recolher os quadros não vendidos e ir para casa. A amiga ficou para ajudá-lo. Uma força maior tomou conta de Luiz. Tinha que ser naquele momento. 

– Débora, tenho algo para dizer a você.

Tentou soltar a voz, mas achou difícil. Mãos trêmulas, um brilho nos olhos...

– Também tenho algo a dizer – Débora declarou com um olhar meigo.

“Por favor, me ajude a falar” – ele pensou, pedindo-lhe:

– Fale primeiro, Débora...

– Você se lembra daquele curso que falei que queria fazer nos Estados Unidos? Consegui a vaga. Estou tão feliz – sorriu.

– Quando você parte? – Luiz ficou meio sem jeito.

– Amanhã pela manhã. E você, o que tem para me dizer?

– Acho que me esqueci. Não era nada de importante.

Faltou a tal coragem. Pela primeira vez, ele teve um sentimento diferente por uma mulher e a falta de experiência o impedia de fazer uma confissão.

– Tenho certeza que você fará muito sucesso, Luiz. Você tem talento. Siga em frente. Não desanime, pois vai conseguir o que pretende. Acho que essa será a nossa última conversa. Boa sorte, meu amigo.

– Para você também, Débora. Sorte no seu curso.

Abraçaram-se. Ele fechou os olhos e deixou cair uma lágrima. Quando ela estava saindo, resolveu chamá-la:

– Débora...

– Que foi? – ela perguntou ao se virar.

– O quadro já tem nome: “A Musa”!

Débora sorriu e se foi.

***

O tempo passou... Luiz realmente tornou-se um pintor muito solicitado. Muitos compromissos. Apesar do sucesso profissional, não permitia a entrada de outra pessoa em sua vida. Sentia muita falta daquela amiga que um dia gostaria de ter tido ao seu lado como mulher. Aquela que ele julgava diferente das demais, de jeito delicado, intelectual e tão atenciosa.

Um dia, aceitando o convite daquele velho advogado, pegou o seu carro e saiu para almoçarem juntos.

Parou no semáforo vermelho. De repente, viu alguém conhecido no carro ao lado. Rapidamente retirou os óculos escuros, abaixou o vidro e buzinou. A pessoa ao volante do outro carro se virou e foi surpreendida.

– Como vai, Débora?

– Muito bem, Luiz, e você? – Débora, como sempre, foi simpática.

– Gostaria de falar com você.

– Agora? Não vai dar...

– Ligue para mim, o número ainda é o mesmo.

– Estou com a minha agenda muito cheia, mas pode deixar que ligo para você durante a semana.

O semáforo abriu e os dois partiram em direções diferentes. Luiz estava contente, pois Débora iria ligar para ele. Agora, não iria poupar esforços para fazer a confissão. Porém, uma dúvida invadiu sua mente: “E se ela já tiver outro?”.

Emílio Figueira - Escritor

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo independente. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de noventa títulos lançados. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira foi professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva. Atualmente dedica-se a Escrever Literatura e Roteiros e projetos audiovisuais.

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