2 – UMA CONSTANTE CONSTRUÇÃO COMO ESCRITOR

O MITO HOLLYWOODIANO

Vez ou outra recebo mensagens eletrônicas, recados via redes sociais me pedindo ajuda. São pessoas desejando publicar livros, querendo que eu lhes apresentem às editoras, editores, enfim. Assim como eles, quando jovem, eu também acreditava que bastava apenas ser indicados a esses profissionais, que meus livros seriam publicados...

Na verdade, assim como eles, eu acreditava em um forte mito que há em torno da profissão de escritor. Mito esse que é muito reforçado por telenovelas e filmes, principalmente hollywoodianos. Basta a pessoa escrever um livro, seja qual for o assunto. Enviar à editora que será publicado, lançado e fará muito sucesso. Muitas vezes renderá milhares em dinheiro, mudará a vida do autor da obra.

Mas a realidade não é bem assim. E, pautado em minha trajetória, falarei como vem sendo a minha construção como escritor!

SÃO PAULO, ANOS 1970

Como já é sabido, os meus primeiros anos de vida foram marcados por muita reabilitação. Eu passava os dias inteiros de segunda à sexta-feira na AACD em intensas atividades e no processo de alfabetização. Os finais de semana eram no apartamento com meus pais e irmã, pois ainda não havia nascido a caçula da família. Meu lugar preferido era o quarto, onde tinha uma mesinha verde de formica que nós ganhamos dos nossos pais para estudar.

E como àquela mesa foi importante para mim. Eu sempre ganhava muito papéis, lápis de cor, canetinhas, tintas e pincéis. Certamente para estímulo do meu desenvolvimento psicomotor. O que ninguém poderia sequer imaginar, era que estavam estimulando muito mais do que isso. Eram horas intermináveis onde eu desenhava, criando mundos imagináveis, estudando o sistema solar, tentando criar máquinas com sucatas, sentindo-me um cientista inspirado no Visconde de Sabugosa, do Sítio do Pica-Pau-Amarelo que eu tanto assistia na época.

E nesse clima do meu quarto comecei a escrever muito. Talvez eu tenha escrito muitas historinhas. Só que dessa época só me sobrou quatro pequenos textos intitulados Diálogos.

Já conheci algumas pessoas, principalmente na época da faculdade de psicologia, que dizem acreditar que eu comecei a escrever como uma forma de compensar a minha dificuldade de dicção e comunicação. Independente de qual tenha realmente o motivo, o importante é que eu comecei a escrever!!!

GUARAÇAÍ, LITERATURA E JORNALISMO

O ano de 1981 marcaria uma grande virada em minha vida. Fui morar com meus avós na pequena cidade do interior chamada Guaraçaí.  A família, os profissionais de reabilitação e os médicos que me assistiam apostavam muito que ali eu teria um grande desenvolvimento físico. E realmente tive. Não só físico, como intelectual. O fato de eu ir estudar em uma escola normal foi o grande desafio que fez toda a diferença positiva.

A mesinha verde foi comigo. Na chácara meus avós providenciaram um canto no quarto só para eu ter meu espaço sossegado de estudos. E ali continuaram a surgir muitos rascunhos e até mesmo a arriscar-me a escrever os primeiros versos.

Em 1983 ocorreram três marcos nessa caminhada. A Rede Globo colocou no ar a telenovela “Louco Amor”, que expunha o amor aos conflitos provocados pelas diferenças de classe social. Nela, Fábio Jr fazia o papel de um escritor de livros e roteirista de cinema e a Glória Pires era uma jovem jornalista iniciando a carreira. Certamente naquele momento, eles foram a minha inspiração. E, antes mesmos dos dez anos eu já tinha definido que queria ser escritor de muitos livros e roteirista.

O segundo marco foi a minha entrada para ser auxiliar de tipógrafo na gráfica que editava e imprimia a Folha de Guaraçaí. Foi fascinação à primeira vista, vê aqueles textos serem compostos letra por letra de chumbo, montando parágrafos, páginas inteiras, provas corridas e as pesadas matrizes ser colocadas na máquina, impressas uma a uma. O cheiro da tinta, o alto som da máquina impressora era algo que pareciam me preencher a alma.

Eu queria ter meus textos impressos nas páginas do jornal. Apesar de muito novo, 12 anos, os responsáveis abriram as portas para mim, publicando meus primeiros textos ficcionais e poesias. Tenho o dia 30 de julho de 1983, data que foi publicado o meu primeiro texto na Folha de Guaraçaí, como o marco inicial da minha carreira. 

Em setembro daquele ano ganhei a minha primeira máquina de escrever portátil. Muitos pensavam que eu não conseguiria datilografar devido ao meu problema de coordenação motora. Quando nós pessoas com deficiência desejamos algo, vamos nos adaptando até consegui. Aprendi a colocar o papel no carro da máquina, até mesmo com mais de uma folha e carbono entre elas. Conseguia datilografar com um só dedo, muitas vezes retrocedendo para corrigir letras batidas erradas. Como era gostoso aquele som dos tipos batendo na fita e imprimindo letras no papel!

Houve uma época que, mesmo com a minha pouca experiência de um jovem iniciante, eu me arrisquei a pesquisar para escrever um livro sobre a história de Guaraçaí. Claro que não tive amadurecimento para realizar o projeto. Mas já despertava o meu fascínio por pesquisas históricas, o que mais tarde seria uma marca em minha carreira.

Enviava cartas e originais de livros às editoras, mesmo com todos os meus erros de datilografia e português na esperança de ser publicado. Também nutrido pelo mito que bastava escrever um livro, seja qual for o assunto. Enviar à editora que será publicado, lançado e fará muito sucesso. Ficava em média seis meses esperando uma resposta que sempre era “não”. Foram mais de cinquenta recusas, cheguei a formar uma grossa pasta com todas essas cartas. 

Poucos anos depois, aos 16 anos, eu já estava escrevendo as reportagens e editoriais para o jornal. Meus pais me deram uma máquina de escrever profissional, grande, paixão à primeira vista! Comecei a ter uma vida intensa na cidade como repórter. Eu cobria todas as áreas da cidade, política, esporte, policial, variados eventos, coluna social. Gostava de escrever minhas matérias aos sábados e domingos e durante a semana eu as acompanhava na redação, as correções, as composições, as provas tipográficas, até as impressões dos jornais. Acreditava a aquele seria meu mundo para sempre...

Acabei fazendo o curso técnico de Jornalismo que existia na época, além de ler muitos livros sobre o assunto. Nascia o meu segundo objetivo de vida: ser jornalista!

Apesar de tudo isso, eu não passava de um adolescente começando a descobrir o sexo oposto. Eu fazia e enviava poesias, cartas de amor às meninas. Até mesmo de forma inconsequente. Reunindo esse material, organizado por minha escola e com o financiamento do meu pai, em novembro de 1986, era lançado o meu primeiro livro de poesias “Noites Guaraçaienses”. Foi uma festa linda no Guaraçaí Clube, que ficou lotado de gente. O livro vendeu duas edições em três meses.

Com os meus amigos cheguei a elaborar todo o projeto de um jornal. Algo bem ambicioso para uma cidade tão pequena. Ele chamaria “Correio Guaraçaiense” e tenho tudo guardado até hoje com muito carinho.

Ainda em novembro a minha ex-escola promoveu o Encontro da Juventude, trazendo de São Paulo o escritor Pedro Bandeira. Naquela época ele estava no auge como o autor infantojuvenil mais vendido no momento. Ele tinha contrato de exclusividade com a editora Moderna. Gostei muito dos livros editados por ela que meu sonho passou a ser um autor infantojuvenil da casa. Comecei a mandar os meus maus escritos textos para avaliação via correios. Claro que nenhum foi aprovado...

No jornalismo eu ia bem. Na cidade vizinha, Mirandópolis, fui convidado a escrever uma página semanal sobre Guaraçaí. Semanalmente eu ia sozinho de ônibus entregar as minhas matérias. O editor-chefe, Elói Mendonça, um jornalista com muitos anos de experiências em grandes jornais, corria meus textos comigo, dando-me altos toques profissionais. Além de ter aprendido muito com o Elói, foi ele que me incentivou a adotar o pseudônimo profissional de Emílio Figueira.

Em novembro de 1987, o Encontro da Juventude foi com o escritor e poeta bauruense Luiz Vitor Martinello. Era uma manhã de domingo ensolarado. Eu nem imaginava que estava conhecendo um dos homens que seria um dos personagens mais fundamentais para a minha carreira literária.

Dois anos se passaram. A vida é feita de círculos. O meu tempo em Guaraçaí terminara. Partir para uma nova caminhada profissional e pessoal!

BAURU, ANOS DE FORMAÇÃO

Por motivos familiares, fui morar em Bauru, trocando uma cidade de 7 por uma com 320 mil habitantes. Tive que me superar em muitas coisas, adaptar-me tanto pessoal como profissionalmente. Pensava que chegaria lá, encontraria um jornal de portas abertas para publicar meus textos. Mas a realidade foi bem diferente, a imprensa bauruense era muito grande e disputada por pessoas diplomadas na faculdade de jornalismo. Para mim só restara escrever nas colunas destinadas aos leitores.

Fui encaminhado à sede bauruense de uma importante instituição nacional que tem por objetivo profissionalizar e encaminhar pessoas com deficiência ao mercado de trabalho. No primeiro dia a psicóloga me perguntou o que eu queria ser e lhe respondi que desejaria continuar na imprensa. Ela me disse secamente: “Você não pode ser um jornalista. Você é um deficiente...”

Eu simplesmente me levantei, virei-me e fui embora, nunca mais voltando lá. Nunca precisei de ninguém para dizer o posso ou o que não posso fazer na minha vida!!!

Uma coisa boa foi o meu reencontro com Luiz Vitor Martinello. Ele me adotou como quase um filho. Começou a me incentivar a ler muitos clássicos, teorias, os mais variados autores. Martinello me levava a vários encontros literários, sempre me apresentando com carinho e orgulho a todos, o que me permitiu conviver e aprender com vários escritores, poetas e diversos tipos de intelectuais da cidade.

Luiz Vitor também me apresentou ao pessoal da Jalovi, uma grande livraria no centro da cidade, onde passei a frequentar quase que diariamente. Foi em suas dependências que, em 1990, eu lancei o meu segundo livro de poesias intitulado “A Face Oculta”, financiado pelo meu pai. Por eu estar em uma cidade onde era um desconhecido, os contrário do meu primeiro livro que havia sido um sucesso, naquela tarde eu só vendi dois exemplares. Foi quando eu aprendi a primeira grande lição da carreira de um escritor: Não basta apenas publicar um livro. Como qualquer outro produto, você precisa ter um público formado para consumir a sua obra!

Martinello, assim como outros autores locais, tinham livros infantojuvenis publicados. Isso me inspirava, voltei a retrabalhar alguns de meus rascunhos e a escrever novas ideias e a enviar à editora Moderna e outras na esperança de ser publicado. E novamente eu tinha os meus originais devolvidos. 

Os primeiros anos da década 1990 foram de muito aprendizado. Eu comprava muitos livros na Jalovi, ia às bibliotecas municipais, estudava muitas teorias literárias, poéticas, estilos diferentes de redação, ensaios de grandes pensadores. Frequentava muitos cursos e oficinas das Casas Culturais. Às vezes, aos domingos, a cidade estava vazia e lá ia eu sozinho de ônibus para os cursos. Cheguei a me filiar por algum tempo à União Brasileira de Escritores-UBE, acreditando que aquilo seria bom para a minha carreira.

Continuava a escrever para a coluna do leitor do maior jornal da cidade. Por causa de uma crônica minha publicada, em 1989, eu recebi de presente do Bauru Atlético Clube, uma réplica da primeira CAMISA 10 usada pelo Pelé. Isso era quase uma honraria que o BAC dava às pessoas de destaques e tenho tudo documentado em ofício e matérias de jornais da época.

Foi uma época de muita produção, onde eu passava dias e dias, semanas e semanas de domingo a domingo sozinho em minha mesa no quarto com a máquina de escrever criando muitos textos, poemas, poesias. Independente da qualidade, foi uma produção imensa. E o grande marco era que uma vez por mês eu me encontrava com o Martinello. Levando meus textos e poesias em uma pasta, a gente se sentava em algum bar e passava uma tarde toda. Regados de cervejas e refrigerantes, ele corrigia a minha produção, dava toques, explicações teóricas, gramaticais, sugestões. Sempre muito bem-humorado e brincalhão, certa vez ele me diz algo que até hoje dou risada sozinho quando me lembro: “Sabe Emílio, às vezes suas poesias são uma droga, mas seus títulos são muito bons!”

Esses encontros mensais com Luiz Vitor duraram uns dez anos. E hoje digo seguramente que ele foi a minha grande universidade literária!

Com a idade e o acúmulo de novos conhecimentos, nós vamos amadurecendo. Foi em um momento dessa intensa produção que parei para reler muitos de meus textos. Percebi que muitas coisas já não tinha mais nada haver comigo, muita coisa com redação deficitária, sem a mínima condição de ser publicado. Só que foram importantes no sentido de eu ter praticado o processo de criação e ganhado ritmo de escrita por meio de uma extensa prática de produção. No contexto daquelas criações haviam coisas que só diziam respeito a mim. Então em uma decisão radical, em uma tarde de verão, eu fiz uma fogueira no fundo do quintal e queimei uma média de quarenta originais.

 Interessante como às vezes nós mesmos nos autolimitamos. Na época o computador começou a ganhar força no país. Eu pensava que por minha dificuldade motora eu não conseguiria digitar em um desses novos aparelhos. Fui fazer curso de informática e foi paixão à primeira vista. Aprendi a digitar só com um dedo, como faço até hoje. Com o mouse não tive nenhum problema. Comprei o meu primeiro computador e comecei a digitar todos os meus textos, sendo muito mais fácil que usar a máquina de escrever. Além do mais o texto era limpo, sem rasuras, melhor apresentado visualmente. Logo comprei uma impressora matricial e passei a imprimir muitas das minhas escritas.

Desde a minha mudança para Bauru, eu havia iniciado uma série de pesquisas sobre a realidade das pessoas com deficiência no Brasil. Comecei a escrever muitos artigos que foram publicados em diversos jornais e revistas do país. Ganhei colunas em importantes publicações e portais de notícias. A editora Mennon publicou o meu livro “Vamos conversar sobre crianças deficientes”, minha primeira obra distribuída em nível nacional e que durante cinco anos foi adotada em faculdades de psicologia e pedagogia. (Mas essas passagens irei detalhar no próximo capítulo.)

Continuava a enviar cartas e originais às editoras para serem avaliados e consequentemente publicados. Agora além das obras literárias ou infantojuvenis, eu também enviava com temas sobre nós pessoas com deficiência. Às vezes eu até mantinha, ou tentava manter, contatos com os editores por e-mails. Só que como sempre, os originais eram devolvidos em média seis meses após o meu envio.

Graças aos textos publicados nacionalmente e ao meu livro publicado pela Mennon, fui convidado para escrever enquanto bolsista a história do conhecido carinhosamente Centrinho - o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais-HRACF, da Universidade de São Paulo-USP, campus Bauru. Estava eu mergulhado em minha primeira grande pesquisa histórica.

Os meus originais dessa história ficaram tão bons, que acabei permanecendo por sete anos como bolsista do Centrinho. Nesse período pude escrever cinco monografias, publicar trinta artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, fazer quatro especializações. Dentre elas destacam-se uma em literatura infantil e uma literatura social. Nessa última escrevi os originais de “A Fábrica de Sorrisos – Uma Novela Literária Quase Real!”, permitindo-me a estudar mais a fundo a escola da Literatura Realista e pude criar uma obra experimental misturando escritos ficcionais com redação científica, o que vem ganhando força agora em minha literatura. Essa novela só veio a ser publicada vinte anos mais tarde, em 2018.

Vale um registro que, após o Centrinho, entidades bauruenses como o Senai também me convidaram a pesquisar e escrever suas histórias.

Nessa jornada também encontrei preconceitos com relação à minha deficiência motora. Um grupo de intelectuais estava se reunindo quinzenalmente para discutir a criação da Academia Bauruense de Letras. E fui convidado a participar desses encontros. Quase um ano depois, foi marcada a cerimônia de inauguração da Academia a ser realizada nas dependências do Bauru Tênis Club, o local mais fino e tradicional da cidade. Alguns dias antes, uma pessoa muito respeitada e elogiada nos meios intelectuais que não vale a pena citar o nome, ligou à minha avó e disse-lhe que eu não poderia tomar posse, pois, segundo suas próprias palavras, “uma cerimônia tão solene, não ficaria bem a participação de um deficiente...”

Essa pessoa chegou a dizer que depois eu até poderia tomar posse depois, mas seria algo reservado e sem a necessidade de plateia. Fato é que nunca mais eu quis saber dessa Academia. Houveram alguns acadêmicos que eu tinha carinho, que não sabiam dessa passagem e tentaram se aproximar de mim para me unir novamente ao grupo, embora sem sucesso em suas tentativas. Aliás, parafraseando o meu poeta preferido Mário Quintana, “eles passarão, eu passarinho!”

De repente senti a vontade de retomar a ideia e o sonho de ser um dramaturgo e roteirista de cinema e novelista de televisão. Fiz cursos e li vários livros e técnicas de roteirização e me arrisquei a escrever alguns roteiros. Atrevi-me até a enviar currículos para os canais de televisão e produtoras independentes me oferecendo como roteirista.  Consegui escrever e ter produzidos alguns poucos vídeos institucionais, como por exemplo, na TV Centrinho. 

Como dramaturgo, tirei o meu registro profissional na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais-SBAT. Nesse período escrevi nove peças para o teatro, ganhando um concurso internacional de Dramaturgia em 2000. Cheguei a trocar correspondências com a Renata Pelottini, referência em ensino de dramaturgia no país.

Só que minha vida sempre foi de muito experimentalismo. No início dos anos 2000, talvez em uma retomada inconsciente da época que eu desenhava muito no apartamento quando criança, voltei a pintar. Ia à Jalovi, comprava papel-cartão, lápis aquarela, tintas guache, carvão, e desenhava, desenhava, desenhava, pintava, pintava, pintava... Colecionava livros de artes, dirigia-me à biblioteca municipal, passando tardes pesquisando e admirando os grandes mestres.

Confesso que nessa época tive que vencer um autopreconceito; sempre tinha na mente aquelas pinturas acadêmicas perfeitamente pintadas e sofria muito em pensar que a minha coordenação motora nunca me permitiria atingir esse nível. Mas com o tempo, fui descobrindo que havia outras formas de expressão com as quais eu poderia me desenvolver plenamente, como por exemplo, o expressionismo e o abstracionismo. Com o tempo, fui desenvolvendo o conceito de que a verdadeira arte não é a cópia fiel da realidade e sim a transcendência das criações artísticas. Interessante também foi notar que quanto mais eu pintava, mais a minha coordenação ia se afinando e meus traços ficando melhores e firmes. É dessa fase a pintura do meu autorretrato.

Entrei como aluno no ateliê de um artista plástico da cidade, fazendo aulas duas vezes por semana, aprendendo técnicas da pintura de óleo sobre tela. Fiz outros cursos com professores com propostas diferentes na Casa de Cultura. Nessa érea foi a e única vez que tive um apelido: Pouca Telha, por causa da minha careca.

Estudei muita parte teórica, como História da Arte. De todas as técnicas aprendidas, a minha paixão foi o guache, por representar a liberdade de criar como uma criança. Interessante que quanto mais eu praticava, mais minha coordenação motora afinava e meus traços ficavam firmes. 

Paralelo, fui cursar em uma escola profissionalizante um pouco de artes gráficas e de editorização. Cheguei a ilustrar algumas das minhas estórias infantis no computador. Curioso como sempre, fui aprender um pouco de programação em linguagens DOS, HTML e Clipper. A internet ganhava cada vez mais força e comecei a criar meus primeiros sites.

Durante um tempo, acreditei que as artes plásticas e gráficas seriam a minha profissão dali pra frente. Só que não...

Senti a necessidade de estudar mais em nível acadêmico. Prestei vestibular para psicologia na Universidade do Sagrado Coração-USC em Bauru. Foram anos felizes e de muitos sonhos e projetos profissionais. Pautado pela experiência de pesquisador no Centrinho, decidi que queria ser um cientista. Durante toda a graduação fui imensamente estimulado pelos professores a pesquisar e escrever artigos. Época em que, por iniciativa própria, estudei muita filosofia paralelamente. E eu tinha duas linhas definidas de pesquisas: trazendo um pouco da minha vivência nas artes plásticas, uma era a Psicologia da Arte, que me rendera mais tarde três livros. E a outra seria o conceito de inclusão que ganhava cada vez mais força. 

Nessa caminhada acadêmica, percebi que as disciplinas intituladas “Psicologia do Excepcional” não estavam de acordo com todo o conceito de evolução das últimas décadas. Então meu trabalho de bacharelado em psicologia estudei os currículos dessas disciplinas em todo o país, propondo uma modernização, inclusive no nome: “Psicologia e Pessoas com Deficiência!”

Saí da faculdade com o propósito de continuar minha formação de cientista e me tornar um autor didático. Talvez por minha dificuldade de dicção, essas obras representariam uma possibilidade de me tornar um professor por meio deles.

Eu já tinha um dos meus principais métodos de trabalho. Quando tenho ideia de escrever um livro, seja ele científico ou ficção, monto uma pasta colecionando tudo que esteja ligado ao tema, que possa gerar capítulos ou histórias, características que possam ajudar na composição das personagens e de cenários, enfim... Ao achar que é o momento de executar aquele projeto, pego a pasta, revejo toda a pesquisa, vou criar roteiro do futuro livro e início o processo de escrita. Ao mergulhar, apaixono-me pelo o que estou escrevendo, desejando ficar o tempo todo com ele. Mesmo fora dos momentos de escrita, em casa ou na rua, meus pensamentos continuam no projeto. E assim eu o vivo intensamente até o seu término.

Quase todos os meus livros nasceram assim. Mas também confesso que um número muito grande de ideias não passam de pastas, sendo abandonadas por diversos motivos.

Uma das minhas características foi sempre ter a iniciativa de buscar minhas oportunidades, assim como centenas de comunicações que já enviei às editoras. Nessa época a Rádio Veritas da USC lia várias de minhas poesias durante sua programação. Eu tinha inúmeros trabalhos literários em publicações alternativas, entrevistas em vários jornais e revistas e ganhado alguns prêmios, principalmente no jornalismo e no teatro. Ministrado palestras, principalmente em colégios. Posso dizer que, ao deixar Bauru, eu já era conhecido como escritor!

VOLTA À SAMPA

No início de 2007 estava de volta para morar em São Paulo. Junto eu trouxe a minha biblioteca com mais de mil livros das mais variadas áreas. Meu sonho era me afirmar nas carreiras de escritor e cientista, ganhar muito dinheiro, casar-me e ter um escritório bem montado em minha casa. Mas o destino tinha outros planos para mim. 

Até que um dia, olhando todas àquelas caixas de livros, cheguei à conclusão que era até um egoísmo tê-los só para mim. Mesmo porque, muitos deles só enfeitariam as estantes, sem nunca mais serem abertos. Não tive dúvidas. Fiz um inventário, enviei como doação quase todo o meu acervo à USC. Era uma forma de agradecimento à Universidade que um dia me acolheu com tanto carinho!

Essa é foi uma constante ação em minha vida. Ganho ou adquiro muitos livros e, ao não me serem mais úteis ou não me interessarem mais, envios às bibliotecas. Outro hábito que tenho é que sempre que preciso reorganizar minhas ideias, vou fazer arrumação, organizar meu escritório, pastas, arquivos, separando o que é lixo, o que é para ser doado. Outro segredo que nunca contei para ninguém: minhas melhores ideias sempre surgem quando estou tomando banho ou almoçando sozinho. E hoje quando penso em escrever um livro, meu primeiro passo é desenhar a capa; olho para ela e começo o processo de escrita como se tivesse um ponto definido de onde preciso chegar. Muito louco isso...

Voltei a tentar ser um autor de obras infantojuvenis, mas percebi o quanto esse era mercado fechado para poucos escritores “amigos do rei”. Ainda no primeiro semestre tive a oportunidade de fazer um curso semanal com a Laura Barcellar, uma das pessoas mais experientes do mercado editorial brasileiro. Das coisas importantes que aprendi nessas aulas foi descobrir como funciona a mente dos editores. Quais os critérios que eles usam para selecionar originais a serem publicados. A importância da obra ter um público consumidor bem específico que numericamente justifique colocar um livro no mercado, pois o livro é um produto cultural a ser consumido. E, para isto, pessoas e editoras vão investir dinheiro na produção, distribuição dos títulos e precisam ter retornos financeiros.

Em seguida, fiz curso na Escola de Escritores com a Maria Easther Mendes Perfetti e o João Scortecci, pessoa importante em minha carreira, editor de quatro obras minhas, inclusive as primeiras. Esses e outros cursos foram fundamentais para eu começar a realmente conhecer os meandros do mercado editorial e a criar uma mentalidade de, além de só um escritor, ser um profissional do livro. E assim caia mais ainda o mito que “basta a pessoa escrever um livro, seja qual for o assunto, enviar à editora que será publicado, lançado e fará muito sucesso”.

Dando continuidade à minha formação acadêmica, no segundo semestre de 2007 entrei no mestrado em Psicologia da Educação na PUC-SP, mas por questão de bolsa, não pude continuar. Em seguida fiz mestrado em Educação Inclusiva em uma instituição na Bahia. Resumindo minha formação pós-graduação, além das especializações na USP e o mestrado, fiz formação e doutorado profissional em psicanálise e depois bacharelado e doutorado em teologia.

O assunto inclusão social e educação inclusiva ganhava cada vez mais força no Brasil. Comecei a estudar, ter contato com muitas pessoas envolvidas na temática. E, consequentemente, a escrever muitos artigos e livros. (Assunto que detalharei em capítulos mais adiante.)

Em 2008, eu lançaria pela Giz Editorial a minha obra “Caminhando em Silêncio – Uma Introdução à Trajetória Da Pessoa Com Deficiência Na História Do Brasil”. Fruto de uma longa pesquisa, essa obra já está em sua terceira edição, cada vez mais se torna uma referência nessa área e é o meu livro mais vendido até hoje. Sua quarta edição agora chama-se "As Pessoas Com Deficiência Na História Do Brasil - Uma Trajetória De Silêncios E Gritos" lançado pela Wak Editora em 2021.

Um ano depois, publiquei pela Giz a autobiografia “O Caso Do Tipógrafo – Crônicas das minhas memórias”. Vencedor do Prêmio Sentidos 2011 na Categoria Literatura, nesse livro eu narro em muito mais detalhes a minha vida desde o meu nascimento até os 40 anos de idade. Depois essas memórias foram atualizadas e a segunda edição saiu em 2020.

O LIVRO NA ERA DA INTERNET

Nesse meio tempo descobri o mundo dos blogs e suas infinitas possibilidades. Além de escrever conteúdos, publicar meus textos livremente, pelo conhecimento prévio que eu já tinha em programação e HTML, comecei a personalizar meus blogs e sites. Ao longo desses anos criei muitos blogs temáticos. Alguns vingaram, outros não. Quanto mais mexo e pesquiso recursos, mais eu aprendo. Hoje posso dizer que por meio deles realizo o meu sonho adolescente de ter o meu próprio jornal, o velho projeto do “Correio Guaraçaiense”.

Paralelo aos blogs, comecei a produzir os primeiros e-books com meus textos e distribui-los gratuitamente. Antes para se lançar um livro, precisávamos de um editor, uma editora, uma gráfica e uma edição pequena de exemplares a ser vendida. Com o advento da internet, esses caminhos se tornaram infinitos. Antigamente eram poucas as mentes na figura de alguns editores que tinham nas mãos o poder de decidir o que seria lido no país. A internet foi também o fim de uma ditadura da literatura acadêmica. O crescimento do mundo digital nos deu uma democracia de todos se publicarem em infinitas possibilidades e ampliarem de alguns milharem para milhões de leitores. Nunca o conhecimento em geral esteve tão acessível a todos. E com isso o mercado editorial precisa se reinventar para acompanhar mudanças em um ritmo cada vez mais aceleradas.

Quando se tem um objetivo fixo e você trabalha retamente por ele, no momento certo os caminhos se abrem. Quase vinte anos depois, com surgimento de novas tecnologias e da internet, descobri a autopublicação por meio de um site onde a gente disponibiliza a obra e capa ao custo zero e coloca o valor dos direitos autorais que quer receber. O leitor pode escolher se quer adquirir a versão digital ou a impressa, que é feita por unidade e enviada à sua casa.

Os cursos que eu havia feito em artes gráficas e diagramação, capacitam-me a publicar e lançar meus livros sozinho por meio da autopublicação. Foi como abrir a gaveta e deixar sair uma média de trinta títulos. Inclusive acabei reescrevendo muitos antigos rascunhos e disponibilizando nesse site.

Se por um lado a internet nos trouxe infinitas possibilidades, por outro, independente de ser bom ou ruim, nunca se publicou tanto conteúdo segundo a segundo em sites, blogs e publicações digitais. Isso espalhou de maneira imaginável a atenção de leitores, pois é incontável o tanto de informações que temos para absorver, muitas vezes não dando conta. 

Se agora é muito fácil publicar nossas obras, a dificuldade passou a ser conquistar e fidelizar os nossos leitores consumidores da nossa produção. Temos que criar um grupo quase particular formado pelos nossos parentes, amigos, pessoal do trabalho, colegas de profissão, alunos que possam se interessar pelo assunto de nossas obras, enfim... Hoje cada autor quase que constrói sua aldeia de leitores. Posso até ser radical neste pensamento, mas fora pessoas renomadas e de boa penetração na grande mídia, dificilmente teremos obras estourando em vendagens por todo o país.

A autopublicação me leva a ter uma mente de empreendedor. Tive que estudar noções de administração, novas técnicas a aprender mais em cursos sobre como produzir modelos diferentes de e-books. A fazer pesquisa de mercado e interesse dos leitores. A produzir/escrever de acordo com a necessidade do mercado. Tenho conhecido e aplicado estratégias de mídia e marketing digital. Feito parcerias diretas com grandes livrarias os disponibilizo meus livros digitais. E até criei simbolicamente a minha editora, a Figueira Digital.

Hoje vejo os quatro caminhos de publicação e minha caminhada por eles, o que poderá ser para qualquer outro escritor:

O primeiro é aquela visão romântica do mito que alguém escreve um livro, envia à editora, é aprovado, publicado e faz o maior sucesso. Mas na realidade um autor sem nome no mercado só é aprovado se a obra realmente tiver valor comercial muito grande de venda. Mesmo assim, leva de um a dois anos para uma obra sair do forno da editora.

O segundo caminho é usar os serviços de uma editora prestadora de serviços, onde o autor financia a edição, elas fazem tudo bem feito, mas depois cabe ao autor promover e vender os exemplares de seu livro. 

Um terceiro caminho, e que tenho usado, é nós mesmos fazer a edição do livro e mandar imprimir pequenas quantidades em gráficas rápidas, conforme for vendendo.

Há ainda duas possibilidades de publicação gratuita: Através do site que citei, onde conforme vai vendendo, eles vão imprimindo e enviando ao comprador e vamos recebendo os direitos autorais. Mas aí é a gente que tem que preparar a capa e miolo do livro e fazer toda a divulgação. Ou publicar o livro como e-book e vendê-lo em sites como Amazon, Livraria Cultura, Saraiva, etc. Hoje os livros digitais vendem muito mais que os livros impressos.

SONHOS QUE NUNCA MORREM

De tempos em tempos eu me pego no desejo de largar atividades paralelas e me dedicar e viver só literatura. Ainda não atingi esse estágio. Tenho trabalhado agora para construir e fidelizar o meu público leitor por meio da minha fanpage, construindo um blog pessoal com muito conteúdo interessante e variado.

Passando dos cinquenta anos de idade, alimento cada vez mais o objetivo de ser um romancista. Eu acredito que o momento é este. Hoje, comparando minhas primeiras tentativas de escrever romances na juventude e o que escrevo agora, penso que romancista deva ser uma atividade para pessoas com mais idade mesmo, por acumularem bagagens vivenciais, visões amadurecidas, o que nos permite ter o que realmente contar.

O aprendizado nunca me pode faltar. Tenho estudado sobre as técnicas do romance contemporâneo. Isso acaba se somando a todos os cursos passados que, mesmo que seja de forma inconsciente, sempre estarão presentes no meu processo de criação, somando-se ao conhecimento que tenho de psicologia e psicanálise.

Há sonhos que nunca morrem. E vou continuar a alimentá-los mesmo conhecendo todos os meandros e dificuldades da minha profissão!

Ainda alimento o sonho de ser contratado por uma grande editora e poder me dedicar só ao ato de escrever, sendo distribuído nacionalmente. Sonho em ainda trabalhar em um grande jornal como cronista ou colunista. Não desisti de ser um roteirista de cinema e televisão, dramaturgo no teatro, embora sei que tenho que estudar mais se quiser desbravar meu caminho nos campos audiovisual e cênico.

Em outubro de 2017 estive na cidade de Derrubadas, interior do Rio Grande do Sul divisa com a Argentina. Diferente das minhas tantas outras palestras pelo Brasil aonde eu ia como professor ou doutor, dessa vez fui apenas como escritor. Tive a oportunidade de me encontrar com sete turmas diferentes de crianças e jovens, exibindo para eles o meu pequeno filme infantil “Diálogos” que montei com aquelas mesmas histórias que havia escrito quando criança. Depois nós debatíamos e batíamos tantos papos, foi uma troca de energia tão intensa e alegre. Uma semana depois de ter voltado do Sul, fui para Guaraçaí onde tive essa mesma experiência em muitas escolas infantis municipais. E desses dois acontecimentos, voltei a alimentar novamente o desejo de me tornar um autor infantojuvenil.

E como os sonhos não têm limites, também tenho planos de concorrer à uma Cadeira na Academia Paulista de Letras... 

Vejo minha vida como um círculo. Um círculo que de início naquele pequeno menino que começava a produzir na mesinha em seu quarto em um apartamento, deu uma longa volta em tantas áreas, acontecimentos e becos da vida e agora caminha para se fechar no ponto inicial da figura do eu-escritor. Só que um escritor agora trazendo na mala de sua memória tantas passagens, acontecimentos bons e ruins, batalhas com vitórias e derrotas, pessoas dos mais diversos tipos que podem render bons personagens. Um escritor capaz de abrir mão do seu extenso currículo, almejando chegar o dia que poderá se dedicar a ficar tranquilo em sua mesa em um canto de seu quarto apenas escrevendo, viajando pelos mais improváveis caminhos da ficção. E se o destino quiser me deixar na memória nacional, desejo ser lembrado apenas como um contador de belas estórias e fantasias cotidianas!

Depois de quatro décadas dessa caminhada, o que posso concluir sobre a construção de um escritor?

Muito além do mito que “basta a pessoa escrever um livro, seja qual for o assunto, enviar à editora que será publicado, lançado e fará muito sucesso”, ser escritor é uma profissão a ser construída subjetivamente, com muito e constante estudo, práticas diárias. Onde nem tudo que se escreve é para ser publicado, sendo importante a identificação das oportunidades para fazer as coisas acontecerem, construindo nosso próprio caminho! 

Não é como outra profissão, que se cursa uma faculdade, forma-se e começa a enviar currículos em busca de uma colocação no mercado e progressão de carreira. Se me pedisse para resumi a profissão de escritor em uma só palavra, eu diria: perseverança!!!

PRÓXIMO CAPÍTULO

Emílio Figueira - Escritor

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo independente. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de noventa títulos lançados. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira foi professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva. Atualmente dedica-se a Escrever Literatura e Roteiros e projetos audiovisuais.

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