Capítulo 8 - REDESCOBRINDO O AMOR CRISTÃO POR MEIO DA CARIDADE

Todo o movimento dos “Cristãos sem Bandeiras”, levou um grupo de vários representantes de igrejas e seminaristas de teologia a se reunirem para discutir o aumento daquela onda. Uma professora de Escola Bíblica foi diretamente ao ponto:

- Na verdade isso está acontecendo porque a igreja de modo geral não está bem. Será que nossos membros não estão felizes, pois estamos pregando muito sobre grandes bens materiais à uma população que cada vez mais está massacrada por grandes dificuldades econômicas?

- Veja bem, meus irmãos, os sanatórios também estão cheios de nossos irmãos evangélicos entre os pacientes – observou outro rapaz: - Ou a igreja está enlouquecendo as pessoas que a procuram, ou a igreja é procurada por pessoas que estão enlouquecendo. Hoje em certos seguimentos cristãos se prega muito sobre a necessidade de se ter cada vez mais bens materiais e se fazer grandes ofertas às igrejas. Muitos de nossos irmãos não estão conseguindo. E, consequentemente, sentem a falsa culpa de não ter tido fé suficiente para ser atendidos por Deus. E com isso, temos uma onda de pessoas deprimidas, outras enlouquecendo diante das cobranças de certas pregações e muitas deixando as igrejas, morrendo em sua fé. Até sendo intitulados como desagrejados.

Um senhor de mais idade, presbítero de uma congregação tradicional, levantou outra questão:

- Concordo meu irmão. O mundo está cheio de ex-crentes, principalmente das igrejas que pregam somente prosperidades materiais. À medida que os anos passam e as promessas de prosperidades não se cumprem, uma nova safra desses desagrejados decepcionados voltam às ruas. Claro que o papel das igrejas não é agradar a todos que nos procuram. Mas isso é um indicador de que há problemas que não estão sendo tratados, tantos nas igrejas tradicionais, quantos nas pentecostais e neopentecostais.

- E vejam as nossas pregações, meus irmãos – observou um pastor de meia idade: - São sempre em tom de cobranças de alguma coisa, sempre mostrando a necessidade de algum aperfeiçoamento. Hoje estamos pregando mais o medo, um Deus punidor e atemorizante. Chegamos a dizer aos nossos irmãos frases pesadas como essa: “Se você não fizer tal coisa, Deus vai pedir conta disso...!”

Uma irmã da obra da caridade continuou essa reflexão:

- Quando algum membro dessas igrejas comete um deslize, é quase que massacrado por aqueles que se dizem seus irmãos. Lançam muitas culpas em cima dele em vez de agirem com misericórdia. Muitos são levados a mais tribulações e até a depressão. E, dependendo da falta, são expulsos da igreja e já ditos como “condenados ao inferno”. Esses líderes se colocam no lugar de Deus, esquecendo que só cabe a Ele o ato de julgar e determinar o destino eterno de cada alma!

- E com isso, muitos passam a ser desagrejados, ou caem em mãos desses discursos teológicos de bens materiais, vida tranquila, sem obrigações cristãs para com o próximo – comentou o senhor: – E quando pessoas como essas do movimento “Cristãos Sem Bandeiras” ganham as ruas justamente por pregaram o princípio do cristianismo, a amor e a caridade ao próximo, são admirados e seguidos por uns, criticados e combatidos por outros que sentem-se ameaçados em seus segundos e até terceiros interesses que quase nunca são exatamente os pregados por Cristo Jesus.

O senhor que presidia a reunião, pediu a palavra:

- Irmãos, por falar em caridade, vejam a que ponto chegamos. Li nos jornais esta semana a entrevista de um pastor muito influente nas redes sociais. Desses mesmos que se dizem homens de Deus, mas buscam glórias humanas para si. Ele chegou ao ponto de afirmar que “mendigos têm o dever cívico de passar fome”, fundamentando-se no texto 2º Tessalonicenses, Cap. 3, versículo 10: “Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também.”

Um teólogo, especialista em história bíblica, completou:

- Os primeiros cristãos acreditavam na ressurreição de Cristo e no seu retorno ainda em sua geração, de acordo com o que dizia a passagem de Marcos 13, versículo 30: “Na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas aconteçam”. Paulo, por exemplo, acreditava que o retorno de Jesus Cristo aconteceria ainda durante sua vida, como indica esta passagem bíblica que tenho em mãos, 1º Tessalonicenses, capítulo 4: “16. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. 17. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. 18. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras”.

E um velho ancião completou:

- Só que, estre esses citados no versículo por Paulo de Tarso, já haviam os oportunistas da fé que, usando a justificativa que a volta de Cristo estava próxima, tinham parado de trabalhar, passando a viver às custas dos outros, classificados como “os que vivem desordenadamente”. Eram pessoas saudáveis, jovens, capazes que, simplesmente, decidiram viver no ócio aproveitando-se de uma desculpa aparentemente justa. Optaram pela mendicância por considerar esse modo de vida, livre de trabalhos e responsabilidades, mais adequado aos seus interesses.

- Eu acredito mesmo que ainda hoje entre as pessoas em situação de rua, existem muitos oportunistas da caridade alheia, folgados, os chamados “braços-curtos” – observou o presbítero: - Do mesmo jeito que dentro das nossas igrejas está cheio de irmãos e irmãs oportunistas que se especializam e nos enganam, vivendo às custas de nossas obras da piedade. Só que, voltando ao pessoal de rua, eu creio que é muito maior o número de pessoas ali por diversos infortúnios da vida, falta de opção, por não saberem ou terem iniciativas de saírem daquela situação, sem saberem como fazerem isso. Pessoas com suas autoestimas totalmente minadas. Uma grande parte delas foram lançadas às ruas graça a constantes fracassos econômicos de nosso país nas últimas décadas. E não será por conta de um grupo de oportunistas que deixarei de praticar a caridade pedida por Jesus. Aliás, a Bíblia nos pede “fazei o bem, sem olhai a quem”.

Um pastor, professor de psicologia, pediu para falar:

- Eu sei que esta é uma reunião cristã. Mas de modo geral e humana, a caridade é um tema que divide opiniões. Muita gente faz questão de ter esse ato de caridade com o próximo, enquanto outros tantos afirmam que dar esmola é uma forma de perpetuar a pobreza. Alguns acreditam que a esmola pode ser a única forma dessas pessoas fazerem suas refeições. Às vezes, uma única refeição ao dia. Para outros, a esmola pode até aliviar situações de extrema necessidade, mas não contribui para transformar a condição social de uma parcela extremamente em situação de vulnerabilidade. Nem todas estão em um ponto de vida ou morte, mas é altamente provável que pelo menos alguns deles estejam e não podemos arriscar uma infração ética cristã tão óbvia quanto permitir que alguém passe ou morra de fome, podendo ajudar. 

-Sim, esta é uma reunião teológica. Só que o irmão explana tão bem, que peço que continue a nos brindar com sua inteligência – pediu um pastor de idade sorrindo.

- Deus abençoe, irmão. Também há um outro lado de muitas pessoas que acreditam que não dar esmola é mudar toda uma cultura. O hábito de dar dinheiro vem da tradição cristã, principalmente entre os católicos, mas acabou ganhando força no país por meio da política. Não houve investimento na educação. No lugar disso, o Brasil seguiu com ações paliativas e programas assistenciais para enfrentar suas mazelas. Mesmo sendo eles pouco ou nada eficazes. Para essas pessoas em situação de rua, ter seus direitos assegurados em lei é muito diferente de receber esmola. Precisamos acabar com o conceito chamado 'cidadania invertida', que consiste em se colocar exigências para receber benefícios sociais em que a pessoa precisa provar que está numa condição de 'não cidadão' para receber um benefício ou caridade. 

- Concordo – disse o pastor de idade: - Fora das questões cristãs do mandamento da caridade, talvez dar esmola não é a melhor saída, e sim que o Estado seja o provedor das condições para que a pessoa tenha um mínimo social em casos de vulnerabilidade para se reerguer. Só que deixar tudo para a esfera política, é o aquilo que o pessoal do movimento “Cristãos Sem Bandeiras” chamam de terceirizar a caridade. Em outro ponto, lembro-me que o sociólogo Herbet de Souza, o Betinho dizia: “Não adianta falar em direitos e trabalhos para pessoas famintas. Primeiro precisamos alimentá-las para que tenham forças de trabalharem dignamente sem mais precisarem de nossa ajuda”.

Um seminarista pediu direito à palavra e apontou:

- Com relação ao dom da caridade, meus irmãos, hoje o principal desafio das igrejas é reensinar o cristianismo àqueles que estão dentro dos templos, carregam o nome de Cristo nas camisas, nos adesivos em carros, nas frases feitas compartilhadas em redes sociais. Menos nos corações e nas ações do que se espera de quem se diz seguidor do modelo pregado por Jesus. Já há um bom tempo, para muitos, ser cristão deixou de ser uma prática de amor e caridade ao próximo para ser apenas um status social. 

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Emílio Figueira - Escritor

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo independente. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de noventa títulos lançados. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira foi professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva. Atualmente dedica-se a Escrever Literatura e Roteiros e projetos audiovisuais.

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