9 - UM CASAMENTO TALVEZ POR CONVENIÊNCIA?

 Na noite anterior à viagem para São José do Rio Preto, Leandro, na velha solidão de seu apartamento, pensou fortemente em Marion, agora sua colega de empresa. Foi como se aquele sentimento da juventude, da primeira faculdade, voltasse. De repente, num misto de confusão mental, a figura da professora Silvia voltou à memória na ocasião que ela lhe disse: “Na verdade você não ama Marion. Você sofre pelo golpe da discriminação. E, para suportar ou maquiar esse sofrimento, você idealizou um amor irreal e passou a vivê-lo intensa e fantasiosamente como verdadeiro”.

“Só que agora é diferente”, concluiu Leandro. Desde o primeiro reencontro, Marion não escondeu dele suas dificuldades, não teve vergonha de lhe contar que errou na vida. Isso era uma prova de que perdera a arrogância da mocidade; a vida ensinou-lhe. O novo emprego era o começo do resgate de sua autoestima. Agora sozinha na vida pessoal, ele poderia tentar novamente. Levá-la para jantar, passear, ser companhia um para o outro. Quem sabe, nasceria um romance pautado pelo amadurecimento de ambos. Com o tempo, ela viria a morar com ele como sua esposa, preenchendo a vida um do outro, sendo o foco principal o companheirismo e a compreensão mútuos. Talvez poderia até ser o que o pessoal do interior chama de “casamento por conveniência”. Como adultos maduros, já não havia mais espaço para aqueles amores altamente idealizados da adolescência; visavam, sim, preencher uma falta existencial!

Notou que suas fantasias, mesmo em doses moderadas e dirigidas a outra pessoa, foram válidas. Contribuíram para sua adaptação, proporcionando a eliminação de suas angústias, estimulando-o, permitindo enfrentar aquele momento. Passou a fazer-lhe sentido uma frase de Kierkegrard que dizia que “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para frente!”. Realmente, ele estava decidido a investir naquela conquista. Levantou-se do sofá, pegou o cartão dela na pasta para telefonar e convidá-la para um jantar, conforme ele prometera. Ao colocar a mão no telefone, lembrou o importante compromisso que teria realizando uma conferência. Achou melhor descansar aquela noite e, na volta da viagem, aí sim, entrar de cabeça, mas com cautela, na busca daquele ideal sentimental. Guardou o cartão na gaveta de seu criado-mudo.

Ao final do próximo dia, Leandro foi, para o aeroporto, de táxi. Embarcou. Chegou à cidade de seu compromisso. Um representante da empresa já o esperava para levá-lo ao hotel. Era noite. Jantou e foi para o quarto banhar-se e descansar para o dia seguinte. O sono não veio, e sim uma indagação. Como teria sido se aquele desejo de união, que ele estava traçando para Marion, tivesse ocorrido com Milena? Se, depois de formados, em vez de ficar em Guaragudos, ela tivesse vindo com ele para a grande capital? Ela também teria tido a chance de estudar mais, pós-graduar, ser uma doutora, como ele, ser uma executiva bem-sucedida, uma conceituada professora universitária. Por que não? Poderiam estar casados. Já ter filhos adolescentes.

Logo após a faculdade, o tempo encarregou-se de afastá-los; por várias vezes, ele mudou de residência, número de telefone, endereço eletrônico. Talvez, desejou mesmo esse afastamento para esquecê-la como mulher. Ela nunca nem imaginou, mas foi desejada a ponto de, por um bom tempo, ele, calado, ter sofrido de amor. A perda daquilo que ele nunca teve! E hoje, naquele quarto de hotel, longe daquela época, quatorze anos depois, teve a certeza de que aquele sentimento fora sincero.

Longos anos já despencaram do calendário. Onde e o que ela estaria fazendo atualmente? E a pergunta que não queria fazer, mas era inevitável: Será que ela se casou, têm filhos, está feliz? E assim, o sono chegou só de madrugada... 

A convenção seria no próprio auditório do hotel onde estava hospedado. Momentos antes da abertura, ele, sozinho na sala vip, lia algumas de suas anotações, quando uma voz meiga e doce rompeu o silêncio:

– Quanto tempo, doutor!

Em um primeiro momento não quis acreditar. Ao levantar a cabeça, uma figura feminina lhe sorria, em pé à sua frente. Vestida socialmente de preto, cabelo longo, solto e bem maquiada. Seu crachá denunciava ser ela uma executiva da filial local da empresa. Levantou-se surpreso. Era exatamente quem nos últimos tempos habitava suas quimeras e fantasias: Milena! 

Um longo abraço foi inevitável. Ela estava linda, amadurecida, já uma balzaquiana. Não se contendo, ele deu um beijo carinhoso na testa. Sentaram-se abraçados para uma rápida conversa. Num dado momento, ele, sem mesmo ter a intenção, reparou em suas mãos; em nenhuma havia aliança. Quem sabe, aquele seria um sinal de que a vida lhe daria uma segunda chance de buscar e construir a sua felicidade ao lado de alguém tão especial... E o melhor, no mundo real!

FIM

Emílio Figueira - Escritor

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo independente. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de noventa títulos lançados. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira foi professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva. Atualmente dedica-se a Escrever Literatura e Roteiros e projetos audiovisuais.

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