Capítulo 5 - O MOVIMENTO NAS REDES SOCIAIS

Historicamente, o movimento lembrava a “Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida”, uma organização não-governamental do Brasil, fundada pelo saudoso sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, a partir do Movimento pela Ética na Política. Em 1993, Betinho lançou o programa Ação da Cidadania, tendo como objetivo a mobilização de todos os segmentos da sociedade brasileira na busca de soluções para as questões da fome e da miséria, estimulando a participação cidadã na construção e melhoria das políticas públicas sociais. Formados por voluntários, ainda hoje os comitês pelo país promovem, individualmente e por iniciativas próprias, projetos nas mais diversas áreas, como a doação de alimentos, a geração de emprego e renda, educação, creches, esporte e lazer, arte e cultura, saúde, assistência à população de rua e outras.


Vários membros simpatizantes do movimento “Cristãos Sem Bandeiras” começaram a criar e alimentar páginas em redes sociais. Essa ação humanitária foi se espalhando pelo país. Cada vez mais pessoas e todos os tipos de religiosos se uniam nessas ações e postavam nas redes, estimulando e sendo modelos de inspirações à novas iniciativas. Além deles, várias pessoas da iniciativa civil, grandes empresas foram saindo de suas bolhas, criando dentro de si a cultura de arrecadar alimentos e donativos entre seus funcionários, escolas, agremiações esportivas e carnavalescas.

Cumpria-se cada vez mais este versículo bíblico: “Não tenhas preguiça de visitar um doente, pois é assim que te firmarás na caridade”, Eclesiástico 7, versículo 39.


Em um certo dia, o grupo principal do movimento estava em uma ação no centro da cidade, quando um participante disse alegre:

-Vocês viram só? Esses dias a imprensa internacional, citando fontes da Guarda Suíça e testemunhos de outras pessoas, trouxe ao conhecimento público aquele que era o mais bem guardado segredo no Vaticano, embora fossem já muitos os comentários que corriam na Cidade Eterna. O Papa Francisco, vestido como simples padre, tem saído às escondidas durante à noite para visitar e confortar os sem-abrigos de Roma, ajudando as equipes de auxílio da Santa Sé na distribuição de comida, roupas e fundos de apoio.

- Esse papa é um grande demagogo, além de ser um idólatra! – Disse com tom de reprovação um homem de meia-idade, estatura média.

- Idólatra ou não, quem é você para julgá-lo? – Questionou Rubens: - Sabe meu amigo, fico indignado quando se chama o papa de hipócrita, mesmo eu não sendo um católico. Ser sincero é o que? Certos pastores evangélicos que andam em seus aviões particulares? Certos pastores evangélicos que dirigem carros milionários e depois pedem ofertas na TV, dizendo que precisa dinheiro para "Obras de caridade e ajudar os necessitados"? Alguns que se hospedam em hotéis 5 estrelas na Europa com a desculpa de "pregar"? Pastores que enchem estádios de futebol de pessoas que idolatram pregadores e depois saem com sacos e mais sacos de dinheiros?

Uma senhora baixinha, de cabelos curtos, professora aposentada, voz mansa, começou a falar:

- Rapazes, é impossível a quem estude História, ignorar que até poucas décadas atrás todas as instituições que fazem algum bem aos necessitados foram criadas pela Igreja Católica. Hospitais, maternidades, ensino gratuito, leprosários, orfanatos, leis de proteção à mulher e à criança, abolição da escravatura já no mundo antigo. Foi por meio da Igreja que a caridade entrou na História humana. Até ocorreram ações das correntes protestantes nesse sentido, mas por terem se dividido em várias vertentes ou seitas, onde cada uma defende seus pontos teológicos/ideológicos, tais registros não ficaram para a história, não chegando até nós. O mesmo não aconteceu com a Igreja Católica, que, talvez por ser uma unidade, foi capaz de preservar os seus registros históricos. Alguns estudiosos dizem que as ações da Igreja foram puramente assistencialistas e colaboravam para a segregação de pessoas ao longo dos séculos. Só que prefiro focar em outro aspecto. Mesmo sendo assistencialismo, ou pautados pela cultura da caridade, o importante foi que a Igreja reconheceu a existência e as necessidades dessas pessoas naqueles momentos históricos, abrigando-as com a visão e conceitos que tinham na época. 

Yara tomou a palavra, relembrando-os:

- Pessoal, discussões como esta não nos levará a nada. Mesmo tendo suas denominações as quais se identificam, nós “Cristãos Sem Bandeiras” somos aqueles que conseguem ultrapassar as simples placas de nossas igrejas, unindo-se em uma grande corrente de caridade interdenominacional, resolvendo muitos dos problemas atuais! 

- Somos todos racionais - comentou Rubens: – Mas qual o espelho do nosso raciocínio? Ele está voltado para nós, aos nossos interesses, às nossas conveniências. A nossa lógica de vida está construída em cima do nosso conforto, do que gostamos, ou voltado aos interesses e construção de ideias universais? 

- A verdadeira razão é quando o sujeito consegue estruturar suas ideias com uma visão ampla – disse a psicanalista Sílvia: - Aí ele irá construir uma lógica que não será só particular. Senão, tudo que pensarmos será só do mundo das opiniões, o “depende” e de interesses pessoais, “tudo que é bom pra mim, isso é conveniente, isso eu gosto, vai ser bom para minha família. Se for justo pra mim, não tem problema ser injusto para o outro”. 

- A ideia do bem precisa ser vista não só por um grupo de pessoas, senão continuaremos formando guetos, ou nos isolando em bolhas, como sempre observa nossa amiga Sílvia – voltou a dizer Rubens: - A diferença entre construir nossos pensamentos com bases em nossos instintos é interesses e construir os pensamentos com uma visão ampla. A sociedade é uma associação básica de pessoas para sobreviver com interesse de conveniência, de sobrevivência, de praticidade, de segurança, de organização. Porém a harmonia só vai nascer quando houver a consciência de união, para além dos interesses pessoais que supera os instintos básicos de sobrevivência. Aí vai nascer o Estado que contempla a diversidade. 

  O diálogo é concluído por Yara:

- Na união e na harmonia, estamos resgatando os princípios do cristianismo, como em Eclesiástico 11, versículo 15: “Em Deus se encontram a sabedoria, o conhecimento e a ciência da lei; nele residem a caridade e as boas obras”. 


Dias depois, o jornal pertencente à igreja do pastor Hilário, com grande circulação nos meios evangélicos, publicou um forte Editorial, dizendo em certos trechos:

Vem crescendo em nosso país um movimento intitulado “Cristãos Sem Bandeiras”. Espalhando-se rapidamente com o apoio das redes sociais, é uma ação idealizada por uma ex-integrante de uma de nossas igrejas que foi afastada por pregar ideias contrárias à nossa doutrina. Ideias como “quando se está em uma religião, parece que as pessoas entram numa espécie de bolha e não enxergam mais o que se passa pelo lado de fora”, tendo por traz intenções diabólicas de confundir a cabeça de nossos irmãos e tirá-los do caminho da verdade, o que pode aumentar o número de desagrejados.

Mais do que isso. Quando dizem que “a caridade não precisa ser apenas terceirizada”, estão pregando indiretamente contra o dízimo, um mandamento bíblico.

O dízimo nas religiões abraâmicas foi instituído na Lei de Moisés, estipulado para manter os sacerdotes e a tribo de Levi, que mantinha o Tabernáculo e depois o Templo, já que eles não poderiam possuir herdades e territórios como as outras tribos. Depois da destruição do Templo no ano 70 d.c. a classe sacerdotal e os sacrifícios foram desmantelados, assim os rabinos passaram a recomendar que os judeus contribuíssem em obras caritativas. No Israel antigo davam-se dízimos de dez por cento dos animais, do fruto do campo e frutos das árvores comprovado no versículo 30 do capítulo 27 do livro de levítico, terceiro livro do antigo testamento. 

Lembrando o que diz Malaquias 3, versículo 10: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes”.

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Emílio Figueira - Escritor

Por causa de uma asfixia durante o parto, Emílio Figueira adquiriu paralisia cerebral em 1969, ficando com sequelas na fala e movimentos. Nunca se deixou abater por sua deficiência motora e vive intensamente inúmeras possibilidades. Nas artes, no jornalismo, autor de uma vasta produção científica, é psicólogo, psicanalista, teólogo independente. Como escritor é dono de uma variada obra em livros impressos e digitais, passando de noventa títulos lançados. Hoje com cinco graduações e dois doutorados, Figueira foi professor e conferencista de pós-graduação, principalmente de temas que envolvem a Educação Inclusiva. Atualmente dedica-se a Escrever Literatura e Roteiros e projetos audiovisuais.

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